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O resmundo das calavras, por Marcus Fabiano Gonçalves
Em Procura da poesia, Drummond aconselha: “Convive com teus poemas, antes de escrevê-los./ Tem paciência se obscuros./ Calma, se te provocam.” E é fácil perceber neste livro de estréia de Marcus Fabiano o resultado da maturação de quem seguiu o conselho do mestre e soube conviver com seus poemas pelo tempo necessário, sem a pressa dos que buscam na precocidade algum atestado, sem a tardança dos que abandonam seus escritos à gaveta dos adiamentos.
Marcus Fabiano combina um extraordinário domínio da língua e dos seus diferentes efeitos poéticos a uma visão de mundo penetrante e corrosiva. Atento à sonoridade e à concatenação entre imagens e idéias, navega com destreza por estilos diversos. Do espirro do epigrama ao fôlego do poema longo, oferece-nos textos para serem tanto lidos como ditos. E tal consciência das várias dimensões da poesia chega em boa hora, justamente quando um público desabituado ao verso tem sua fome enganada por lasanhas de metáforas tantas vezes sem recheio algum.
O Resmundo das Calavras é pleno de imagens (inclusive das belíssimas ilustrações de Alberto Tolentino), mas o seu autor não abusa das facilidades do impressionismo. Aqui a perspicácia e uma certa acrimônia do espírito são o verdadeiro alimento da sensibilidade. Nada de lirismos açucarados, nem de bajulação do leitor com ternurinhas de agenda de menina. Se você tem problemas com o coração, melhor procurar um cardiologista.
Trata-se de uma poesia na qual resplandece a inventividade. É orgânica, erguendo a voz contra o plástico a fim de reclamar a experiência fugidia da temporalidade. É filosófica, mas sem academicismos. É política, e disposta a fazer da ironia uma forma mais potente de crítica. É cruel, pois o sofrimento humano, da escravidão ao suicídio, também comparece aos seus versos. É perturbada, retratando de modo implacável as relações humanas. É metapoética, indagando o rito da escritura em seus percalços. É histórica, recuando por séculos e personagens a fim de reencontrar – com uma explícita melancolia lusitana – o nosso orgulho em frangalhos. E é ainda uma poesia sarcástica consigo mesma, alimentando a consciência de que a escrita, em um país como o nosso, é um privilégio a ser exercido com menos bazófia. Aliás, logo após o livro ter ficado pronto, Marcus enviou-me este poema que acredito sintetizar o seu gênio iconoclasta e irreverente:
a literatura e a vaidade – principados de Sodoma e Gomorra
a literatura e a realidade – princípios de sarcoma e gangorra,
o câncer inverso de nossas letras, nossos analfabetos
que quanto mais franzinos tanto mais pesam e elevam
aqueles que lhes ensinam a acreditar como doutos e diletos
nossa República das letras: um feudalismo
este que vos fala: um bufão em seus guizos.
Ao penetrar surdamente no reino das palavras, este livro invoca o paradoxo da fala: o silêncio de quando a linguagem coloca-se rente às coisas – o calar da enunciação ao rés do mundo. O Resmundo das Calavras é um livro apaixonante e rigoroso, para ser mais que lido, relido.
Ana Carolina da Costa e Fonseca
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ISBN
85-7599-060-8
168 páginas
Apenas R$
35,00