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Entrevista com Pablo Morenno, em 01/06/2006

O escritor Pablo Morenno, cronista e autor infantil, entrevistado por e-mail por Caio Riter e Walmor Santos, conta sobre crônicas e sua experiência também como autor infantil:

Walmor Santos – Pablo, a tua carreira está sendo rápida e consistente. Como analisas isso?

Pablo Morenno – É muito difícil para um autor que não é do meio literário, que vive longe da capital, que não tem mídia, publicar e ser reconhecido. Mais difícil ainda se esse autor escreve “crônicas”, tido como um “gênero menor”. A análise de minha carreira como escritor pode ser feita no aspecto objetivo e subjetivo. No aspecto objetivo foram relevantes os projetos de leitura da editora, o incentivo e espaço dados a novos autores, a produção material do livro e um preço adequado. No aspecto subjetivo, a linguagem acessível de meu texto, as preocupações éticas que tenho, minha experiência comunicativa de professor de cursinho, e o uso da música como recurso auxiliar.

Caio Riter – O fato de a crônica ter, em sua gênese, as páginas do jornal e, por isso, muitas vezes ser finita, interfere de que forma no processo criativo?

Pablo Morenno – Acredito que o processo criativo da literatura, essencialmente, é similar, independemente do gênero. Trata-se de uma recriação em linguagem de alguma realidade. Enquanto o escritor em geral prende-se à realidade pela verossimilhança, o cronista precisa amarrar-se no cotidiano. A metáfora do cronista é o empinador de pipas. É preciso um olhar atento para descobrir em algo efêmero uma epifania, manifestação, de algo perene. Dizendo de um modo mais complexo, o cronista tem de encontrar transcendência na imanência. Embora o banal seja passageiro, se o cronista conseguiu, ao transformá-lo em linguagem, revelar alguma coisa essencial, o texto vai sobreviver ao jornal. O empinador de pipas está no chão, mas a pipa está no alto. A preocupação ao escrever uma crônica é em encontrar situações que sejam reveladoras de algo não efêmero. É preciso fazer pipas que se sustentem o maior tempo possível no alto. Superando o tempo, as situações tornam-se crônicas em todos os sentidos.

Caio Riter – Como se dá o processo de organização de um livro de crônicas, visto que seu espaço de origem é o do jornal? Que critérios são usados na hora de escolher as crônicas que merecem ganhar a perenidade das páginas de um livro?

Pablo Morenno – Caio, a tua pergunta já contém a resposta. Merecem um livro aquelas crônicas que tem em seu bojo alguma perenidade. Foi desde modo o processo de organização de “Por que os homens não voam?”. Tive a sorte de, no meu primeiro livro, contar com a experiência e a sensibilidade da Elaine Maritza que, junto com Walmor Santos, me ajudou a escolher e aprimorar os textos. Para organizar o livro em duas partes, tomamos como critério o grau de ligação dos textos com a realidade, usando a metáfora do empinador, o comprimento da linha da pipa. No primeiro grupo estão as crônicas mais realistas que apontam meu descontentamento subjetivo com o mundo e, no segundo grupo, as possibilidades e o sonho.

Walmor Santos – Esta visão atemporal e universal em tuas crônicas é instintiva ou produto de uma busca pessoal? Como desenvolveste esta consciência?

Pablo Morenno – Vivemos num mundo dilacerado. Semana passada, por exemplo, aqui em Passo Fundo, uma mãe de 24 anos matou a facadas sua filhinha de 4 anos e seu bebê de 6 meses. Há pouco, houve a onda de violência em São Paulo. Temos guerras étnicas e religiosas em várias partes do planeta. Aquela idéia de que o poeta deve falar do mundo cantando sua aldeia, embora desgastada, tem muito de verdade. A crônica, como literatura, não pode ser diferente. Tirando o véu da realidade, é possível encontrar algo atemporal e universal em tudo o que acontece. Tenho que escrever um texto que possa ser entendido por qualquer homem em qualquer parte do mundo, quiçá, do universo. Não sei se consigo isso, mas o busco conscientemente e constantemente.

Caio Riter – Qual é, para ti, o conceito de crônica e o que tal tipo de texto tem, na tua opinião, de literário?

Pablo Morenno – De algum modo, já respondi na primeira pergunta. Crônica literária é um texto curto que, usando os recursos da linguagem, reconstrói um fato ou situação do cotidiano retirando deles algo relevante sobre o homem ou o mundo e alcançando um resultado estético. Não concordo com a divisão da crônica em jornalística, lírica, cômica, etc. Acho que a crônica é literária ou não literária. Para ser literária a crônica precisa, a nível micro, um cuidado com a linguagem: ritmo frasal, sonoridade, multiplicidade semântica. E a nível macro, uma estrutura pensada, o fato ou situação deve ser uma metáfora ou uma metonímia... O cronista literário, embora parta de algo sensível e palpável, deve revelar no texto uma realidade transfigurada. Aquilo que era efêmero, ao ser iluminado pelas luzes de sentido da linguagem, adquire uma vida vestida de perenidade.

Walmor Santos – A tua produção infantil foi uma provocação da editora, a qual respondeste muito bem, mas como descobriste essa vocação para a crônica?

Pablo Morenno – Tínhamos um jornal da escola para o qual eu escrevia poemas e pequenos relatos curiosos do ambiente escolar: um tombo de uma professora, uma briga de alunos, um vendaval que descobriu a biblioteca. Ao cursar Filosofia, mesmo escrevendo textos metafísicos, fazia referências “físicas”. Nem sempre os professores viam aquilo com bons olhos. Depois de muito tempo escrevendo poemas e crônicas, como admirava a produção literária de Affonso Romano de Sant’anna, enviei a ele alguns poemas e duas crônicas para uma opinião crítica. Pretendia publicar um livro de poemas e, embora achasse um atrevimento requerer atenção a um escritor consagrado, quando me arrependi, já tinha posto o envelope no correio. A surpresa veio na próxima semana. Recebi um e-mail com a resposta. Affonso me dizia ter gostado muito de meu texto, mas que eu precisava amadurecer mais antes de publicar poesia. As crônicas, porém, dizia ele, estavam “quase maduras”. Me indicou um livro seu chamado “A Sedução da Palavra” e muitos outros, além de observações críticas. Mantivemos contato durante algum tempo e, em 2001, numa Jornada de Literatura em Passo Fundo, nos conhecemos pessoalmente. Ele me motivou a participar de concursos e, então, sugeriu a apresentação das minhas crônicas a alguma editora. No mesmo ano de 2001, fui convidado a escrever para o jornal “O Nacional”, de Passo Fundo, e em 2003, a WS Editor publicou “Por que os homens não voam?”

Walmor Santos – Que autores admiras? Alguns destes têm influência direta em tua obra?

Pablo Morenno – Sem especificar gêneros. Affonso Romano de Sant´anna, Adélia Prado, Rubem Braga, Eduardo Galeano, Manoel de Barros, Marina Colassanti, José Saramago, Kafka, Salinger. Influência direta, que eu saiba ninguém. Mas, de modo indireto, todos.

Caio Riter – Quais as preocupações ao escrever e compor tendo como público-alvo a criança?

Pablo Morenno – Embora eu tenha que aprender muito ainda sobre literatura infantil, olho a produção para crianças como a busca de um equilíbrio entre o lúdico e profundo. O texto deve ter uma linguagem adequada, sem ser infantilóide. O fato da criança ser o público-alvo não retira do escritor o compromisso em abrir janelas para o mundo e para a experiência humana. A literatura, como qualquer outra arte, deve transformar em sensações estéticas as manifestações da vida. E isso vale para qualquer público-alvo.

Walmor Santos – Considerando os inúmeros trabalhos no Rio Grande do Sul, pergunto: passaste por alguma experiência como palestrante que tenha te marcado profundamente?

Pablo Morenno – Já tive muitas situações que, inclusive, já rederam crônicas. No Escola Estadual Ernesto Alves, em Santa Cruz do Sul, um garoto de 13 ou 14 anos entrou na sala dos professores com um skate debaixo do braço para comprar meu livro. Ele ainda não o tinha lido, mas, depois de me ouvir na palestra da manhã, foi pra casa, pediu adiantado o dinheiro da mesada do mês seguinte, e voltou à tarde. Enquanto eu autografava o livro, me fez um monte de perguntas inquietantes e inteligentes; Em Fazenda Vila Nova, um menino de 8 anos seguiu-me a tarde inteira. E mesmo depois da palestra com sua turma, ele permaneceu na sala. Depois, na saída, perdeu o ônibus escolar. Ele ficava de meu lado, mas não falava nada. Quando eu e a Diretora o levamos até a Secretaria da Educação para que o motorista da Prefeitura o conduzisse até sua casa, perguntei o que ele desejava de mim. Então ele me contou que queria o CD do livro “Um Menino Esquisito”, mas que não tinha dinheiro para comprar. Dei-lhe o CD e um abraço. Ele foi para casa chorando; e em Santa Maria, numa das primeiras palestras num colégio de classe média, uma adolescente, filha de um médico, disse ter se emocionado muito depois de ler uma crônica chamada “O Menino Mágico”. Ele me contou que pensava ser médica como seu pai, mas, que depois de formada, queria, ao menos de vez em quando, atender gratuitamente alguma criança pobre e sem condições.
São apenas alguns exemplos. Há muitos outros.

Walmor Santos – Tua produção tem muito da experiência pessoal de vida? Concordas que todo o autor, de certa forma, trai-se em sua literatura?

Pablo Morenno – Absolutamente correto. O escritor pensa que inventa quando, na verdade, apenas reconta de forma diferente, o impacto da sua própria existência. Como você mesmo sabe, escrever exige muita dedicação. Ninguém vai gastar tanto tempo burilando um texto, se aquilo não representa algo instigante e significativo para si mesmo.

Walmor Santos – Acreditas que a literatura possa mudar alguém?

Pablo Morenno – Affonso Romano, numa crônica sua, fala que, seguidamente encontra pessoas que chegam e lhe dizem “li um texto seu e resolvi me casar”, outros dizem “li um texto seu e resolvi me separar” e conclui que a literatura, embora sendo inútil, acaba por provocar sensações nas pessoas. O problema é conhecer o processo dessas sensações e como elas levam a determinadas atitudes. Sabe-se que Hitler era um leitor obstinado. Há pouco, li que, Sadam Husseim, na prisão, se dedicava a ler e a escrever poesia. O assassino de John Lenon foi preso com o livro “O Apanhador no Campo de Centeio” de Salinger. Sabe-se, também, que determinados regimes religiosos ou políticos, o primeiro que fazem é censurar a leitura. A Inquisição proibiu e queimou livros, o mesmo aconteceu com o nazismo e durante o regime militar brasileiro. Tem-se, portanto, no senso comum, que o livro contém um potencial subversivo. A literatura provoca nas pessoas um redemoinho na imaginação, na inteligência e nas emoções. Mas é difícil prever quais os fantasmas, quais os personagens que ela desperta no mundo subjetivo. Por outro lado, como escritor, além da preocupação com a técnica e com a estética, tenho uma preocupação ética. Eu, particularmente, escrevo porque acredito que a literatura, como fazer humano, deve ter um compromisso com a vida humana no mundo. Há autores como Affonso Romano, Jostein Gaarder, Frei Betto, Domingos Pellegrini que também pensam assim. Acho que todo escritor escreve porque encontra em sua produção algum sentido embora não seja, necessariamente, a mudança das pessoas ou do mundo.


OBRAS DESTE AUTOR
Por que os homens não voam?
Um menino esquisito c/ CD
Flor de Guernica
 

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